Em Herculano, pesquisadores conseguiram ler a parte preservada de um manuscrito carbonizado sem abri-lo. A descoberta de 2026 une tomografia de raios X, inteligência artificial e filosofia antiga para recuperar palavras desaparecidas da leitura humana durante quase dois milênios.

Durante quase dois mil anos, uma biblioteca inteira permaneceu escondida sob a terra, e seus livros sobreviveram em uma condição que parecia condená-los ao esquecimento. Transformados em rolos escuros e quebradiços pela erupção do Vesúvio, os manuscritos conservaram nas camadas internas palavras escritas na Antiguidade. O problema era encontrá-las sem tocar nas páginas: qualquer tentativa de desenrolar aquele material podia destruir definitivamente a escrita.
Foi justamente esse impasse que uma equipe internacional de pesquisadores começou a superar com tomografia de raios X e inteligência artificial. Em 25 de junho de 2026, o Vesuvius Challenge anunciou a leitura contínua da parte preservada do rolo PHerc. 1667, recuperado das ruínas de Herculano, na Itália. O resultado é importante porque permite examinar um tratado filosófico antigo sem abrir fisicamente o papiro, reunindo técnicas de imagem, processamento computacional e análise especializada do grego antigo.
Onde estava a biblioteca?
Herculano ficava na costa do golfo de Nápoles, perto de Pompeia, e foi atingida em 79 d.C. pelos fluxos vulcânicos produzidos durante a erupção do Vesúvio. O calor alterou profundamente o papiro, enquanto o soterramento ajudou a proteger os materiais de outras formas de deterioração. A combinação desses processos explica uma circunstância quase paradoxal: muitos rolos conservaram sua estrutura interna mesmo depois de perder a aparência de um livro que pudesse ser aberto e lido.

Na década de 1750, as escavações na residência conhecida como Vila dos Papiros revelaram centenas de manuscritos. A coleção continha obras ligadas à filosofia grega, com especial presença da tradição epicurista e de autores como Filodemo de Gádara. Ao descobrir esses rolos, os estudiosos perceberam que tinham diante de si uma oportunidade rara de recuperar escritos ausentes de outras bibliotecas, embora ainda lhes faltasse uma forma segura de acessar as páginas internas.

As primeiras tentativas de abertura eram um trabalho delicadíssimo, realizado com instrumentos mecânicos que procuravam desprender lentamente as camadas. Parte dos textos foi recuperada dessa maneira, ao custo de perdas e danos que hoje seriam inaceitáveis. O cuidado exigido pelos originais mudou a pergunta central da pesquisa: em vez de descobrir como forçar a abertura de um rolo carbonizado, tornou-se necessário encontrar uma maneira de visualizar a escrita preservando o objeto exatamente na condição em que se encontra.
Como a inteligência artificial conseguiu ler um papiro fechado?
O método desenvolvido para enfrentar esse desafio é chamado de desenrolamento virtual. Ele combina a obtenção de um modelo tridimensional do rolo, a reconstrução matemática da superfície do papiro e modelos de aprendizado de máquina treinados para localizar sinais de tinta. A leitura não depende de pedir à inteligência artificial que invente uma versão provável do conteúdo; ela começa nos dados físicos do manuscrito e termina com a conferência da escrita por pesquisadores especializados.
- Obter imagens tridimensionais: o rolo é analisado com microtomografia de raios X de altíssima resolução, sem ser aberto. Para o PHerc. 1667, os dados foram obtidos na linha BM18 do European Synchrotron Radiation Facility (ESRF), em Grenoble, na França, em colaboração com a Biblioteca Nacional de Nápoles, responsável pela conservação do manuscrito.
- Reconstruir as camadas internas: a partir dos exames, os programas seguem as superfícies do papiro que permanecem enroladas e comprimidas. Depois de identificá-las, projetam virtualmente essas superfícies em um plano, de maneira que as regiões escritas possam ser analisadas.
- Detectar vestígios da tinta: modelos de aprendizado de máquina procuram nas imagens padrões físicos associados às letras, especialmente difíceis de distinguir em materiais carbonizados. O sinal recuperado é apresentado em imagens para a etapa de leitura.
- Conferir a escrita: especialistas em grego antigo identificam caracteres, revisam as sequências de palavras e registram lacunas ou incertezas. A transcrição resulta da combinação entre imagem recuperada e análise filológica, não de uma interpretação automática sem controle humano.
O papel da inteligência artificial, portanto, é bastante específico: ajudar a revelar sinais que seriam difíceis de distinguir nas imagens brutas. Isso se torna especialmente importante porque a tinta empregada em muitos papiros era composta principalmente de carbono e, após a carbonização, passou a apresentar propriedades próximas às do próprio suporte. O exame físico central foi a microtomografia de raios X com contraste de fase, e não uma ressonância magnética. A etapa computacional permitiu acompanhar as camadas em espiral, projetá-las em uma superfície plana e destacar os vestígios das letras.
O resultado também precisa resistir à verificação independente. Em outro rolo, o PHerc. Paris 4, imagens obtidas com maior resolução tornaram possível observar diretamente, em três dimensões, sinais associados à tinta. A correspondência com passagens anteriormente recuperadas por métodos computacionais fortaleceu a confiança na técnica. O mesmo princípio orienta o trabalho dos papirólogos: uma sequência de letras somente se torna leitura científica quando pode ser examinada, confrontada e transcrita com critérios explícitos.
A equipe disponibilizou uma visualização interativa do PHerc. 1667, na qual é possível acompanhar a longa faixa reconstruída digitalmente e ampliar as colunas de escrita grega. O material original inclui imagens do rolo fechado, dos cortes tomográficos e das superfícies recuperadas, oferecendo ao leitor a oportunidade de observar o percurso entre um objeto carbonizado e o texto que estava escondido em seu interior.
O que os pesquisadores encontraram?
O texto recuperado do PHerc. 1667 ocupa aproximadamente 1,4 metro de superfície escrita, distribuída em cerca de 22 colunas. É indispensável compreender a extensão exata da conquista: o rolo conservado corresponde ao núcleo que restou de um manuscrito maior, cujas partes externas foram danificadas em tentativas antigas de abertura. Em junho de 2026, os pesquisadores conseguiram ler continuamente a porção sobrevivente, ainda que alguns trechos permaneçam incompletos devido à deterioração física do material.
O conteúdo é um tratado sobre ética e natureza humana, provavelmente associado à tradição estoica. A linguagem e as referências históricas aproximam o manuscrito do século II a.C., com a possibilidade de uma data um pouco anterior. Ainda não se conhece com segurança o título original ou a identidade de seu autor, razão pela qual a atribuição filosófica precisa ser apresentada como uma hipótese fundamentada, sujeita ao exame continuado do texto.
Entre os conceitos estudados aparecem hormé, palavra grega relacionada ao impulso para agir, e phronesis, geralmente traduzida como sabedoria prática. A reflexão investiga a maneira pela qual os seres humanos orientam seus impulsos, aprendem a julgar situações e desenvolvem a própria conduta. Na última coluna preservada aparece o nome de Aristocreonte, sobrinho e discípulo do filósofo estoico Crisipo, referência que ajuda a situar a obra em seu ambiente intelectual sem resolver definitivamente a questão da autoria.
Um dos fragmentos divulgados remete à necessidade de investigar a própria natureza para compreender adequadamente as questões humanas. A passagem desperta interesse por sua proximidade com temas que atravessam a filosofia até o presente, embora uma interpretação precisa dependa da tradução completa e do confronto com o contexto antigo. O valor da descoberta reside também nessa possibilidade: recuperar, com cautela, argumentos que não podiam participar do debate contemporâneo porque seu registro material permanecia fechado.
Outros textos também estão sendo recuperados
A conquista anunciada em 2026 resulta de um trabalho coletivo que ganhou novo impulso em 2023, quando foi lançado o Vesuvius Challenge, com participação do pesquisador Brent Seales e dos empreendedores Nat Friedman e Daniel Gross. A iniciativa reuniu especialistas e colaboradores independentes em um desafio aberto, disponibilizando dados e ferramentas para acelerar a recuperação dos manuscritos. As primeiras palavras identificadas em um rolo fechado levaram à premiação anunciada em 2024 e demonstraram que os sinais de escrita podiam ser extraídos dos exames tomográficos.
Desde então, outras identificações ampliaram a importância do projeto. Em junho de 2026, a equipe anunciou a atribuição do livro VIII de Sobre os Deuses, de Filodemo de Gádara, ao rolo PHerc. 139, além de novas leituras relacionadas a Sobre os Vícios, livro I, no PHerc. 172. Esses resultados interessam à história da filosofia porque permitem reconhecer títulos, autores e passagens que estavam ausentes das edições conhecidas, abrindo novas possibilidades de comparação entre correntes e obras da Antiguidade.
Qual é o próximo passo da pesquisa?
Depois de demonstrar que é possível recuperar a escrita da parte preservada de um rolo fechado, a equipe enfrenta um desafio de outra escala: adaptar o procedimento a centenas de manuscritos, com geometrias, deformações e graus de conservação diferentes. O trabalho ainda exige intervenções manuais significativas, sobretudo nas regiões em que as camadas se comprimiram, dobraram ou se confundem nas imagens tridimensionais.
O programa técnico atualizado em 14 de outubro de 2026 destaca a necessidade de aprimorar a reconstrução das superfícies, reduzir leituras incorretas e tornar a detecção da tinta mais robusta. Para estimular esses avanços, o projeto estabeleceu um conjunto de prêmios totalizando US$ 1 milhão (US$ 800 mil para o primeiro colocado), com prazo previsto para 25 de junho de 2027. A meta é desenvolver procedimentos reproduzíveis que possam atender a uma coleção extensa, preservando a rastreabilidade dos resultados e a revisão especializada das transcrições.
A investigação também avança na física dos materiais. Em um estudo publicado na revista PLOS ONE em setembro de 2026, pesquisadores produziram experimentalmente um rolo de papiro carbonizado e examinaram o comportamento de tintas com diferentes composições. Os resultados indicaram que a fluorescência de raios X pode ajudar a detectar componentes como o chumbo em condições controladas. É uma possibilidade para orientar futuras análises, que ainda precisará ser examinada em manuscritos históricos; não existe fundamento para presumir que toda a coleção tenha sido escrita com tinta contendo chumbo.
A continuidade desse trabalho envolverá novas aquisições de imagens, aperfeiçoamento dos programas de reconstrução e colaboração com especialistas em papirologia para transformar os caracteres identificados em edições críticas e traduções confiáveis. As próximas descobertas poderão trazer nomes de autores, obras desconhecidas e passagens que alterem a compreensão de debates antigos. Essa perspectiva depende do que os manuscritos efetivamente contêm e do estado em que suas páginas sobreviveram.
O que essa descoberta realmente transforma?
A história dos papiros de Herculano mostra o alcance de uma colaboração entre áreas que durante muito tempo trabalharam separadamente. A física produz imagens do interior de materiais frágeis; a matemática e a computação tornam possível seguir suas superfícies deformadas; a inteligência artificial ajuda a identificar sinais sutis de escrita; e o conhecimento histórico e linguístico oferece os instrumentos para compreender as palavras recuperadas. O avanço nasce da combinação dessas competências, apoiada por registros que outros pesquisadores podem examinar.
Esse processo também exige reconhecer os limites do que se sabe. Um trecho que desapareceu fisicamente não retorna apenas porque um algoritmo sugere uma sequência plausível de palavras, e as leituras incertas precisam continuar indicadas como tais. O estudo principal do PHerc. 1667 foi divulgado em pré-publicação científica no arXiv, condição que permite discussão pública e verificação dos métodos sem equivaler, por si só, à aprovação final em revisão por pares.
Talvez a dimensão mais significativa dessa descoberta esteja na continuidade do pensamento humano. Entre as ruínas de uma cidade atingida por uma catástrofe há quase dois mil anos, uma biblioteca preservou perguntas sobre a razão, os impulsos e o conhecimento de si. Hoje, instrumentos desenvolvidos para investigar a matéria permitem que essas perguntas sejam novamente lidas, discutidas e confrontadas com outras interpretações. A possibilidade de reencontrar uma voz filosófica tão distante no tempo lembra que a história intelectual ainda guarda páginas por conhecer.
Fontes científicas e institucionais
- Angelotti, G. e colaboradores. Complete virtual unwrapping and reading of a rolled Herculaneum papyrus (pré-publicação, 2026). arXiv:2606.29085.
- Vesuvius Challenge. An entire Herculaneum scroll has been read for the first time (25 jun. 2026). Anúncio, imagens e transcrições.
- European Synchrotron Radiation Facility. The day the Herculaneum scrolls began speaking again (25 jun. 2026). Comunicação institucional do ESRF.
- Vesuvius Challenge. Open Problems: Why Reading Every Herculaneum Scroll Is Still a Challenge (atualização de 14 out. 2026). Mapa técnico das etapas seguintes.
- Seiler, D. e colaboradores. A model carbonized papyrus scroll opens a novel path to identifying readable scrolls of the Herculaneum Library. PLOS ONE, 21(9), e0353485 (16 set. 2026). DOI e artigo de acesso aberto.
- Angelotti, G. e colaboradores. Ink detection from surface topography of the Herculaneum papyri. Scientific Reports, 16, 27835 (2026). Artigo científico.
- Vesuvius Challenge. Perguntas frequentes e histórico do projeto; Navegador de amostras e resultados.
Nota editorial: as fotografias são de exemplares e locais distintos do manuscrito PHerc. 1667. As imagens técnicas deste rolo podem ser consultadas na fonte original do Vesuvius Challenge. Apuração atualizada em 31 de outubro de 2026; publicação prevista para 2 de novembro de 2026.
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